Pesquisa e Desenvolvimento

Um programa para aprimorar envolvimento paterno: impactos no desenvolvimento do filho

Crianças que não possuem uma relação positiva, segura e afetuosa com o pai ou cujo pai usa práticas disciplinares rígidas, oferece supervisão inadequada e mantém baixa qualidade ou freqüência de interação com seu filho, possuem elevado risco de apresentar problemas no seu desenvolvimento socioemocional e de ter menor desempenho acadêmico. No entanto, a maioria dos homens tem pouco conhecimento da importância do seu envolvimento com seus filhos. Este estudo teve por objetivo principal avaliar uma intervenção que visava aprimorar o envolvimento do pai e estimular seu uso de práticas parentais favorecedoras de comportamentos pró-acadêmicos por parte dos filhos, comparando medidas obtidas antes e depois da intervenção e um ano depois (follow-up). Os objetivos específicos foram: (a) comparar alguns indicadores das condições de trabalho, do bem-estar pessoal e familiar, do envolvimento paterno e do repertório de habilidades sociais dos pais, nas fases do pré-teste, pós-teste e follow-up, entre o Grupo Experimental 1 (GE1 – composto pelos pais que foram aleatoriamente selecionados para participar da intervenção), Grupo Experimental 2 (GE2 – composto pelas mães que participaram da intervenção, com possibilidade de impactos indiretos sobre os pais) e o Grupo Controle (GC – composto pelos demais pais interessados, mantidos num grupo de espera); (b) comparar o desempenho acadêmico, o autoconceito, os problemas de comportamento e o repertório de habilidades sociais das crianças, no pré-teste, no pós-teste e no follow-up, entre o GE1, GE2 e GC; (c) avaliar a força das correlações entre essas variáveis e (d) analisar a avaliação dos pais sobre os temas abordados e os procedimentos adotados na intervenção. Participaram deste estudo 97 pares de pais e mães (29 do GE1, 34 do GE2 e 34 do GC) no pré-teste e no pós-teste e 82 destes pares no follow-up (24 do GE1, 29 do GE2 e 27 do GC). Na época dos pré- e pós-testes, dados também foram coletados com 99 crianças, contando com dois pares de gêmeos (29 do GE1, 36 do GE2 e 34 do
GC). Na época do pré-teste, estas crianças estavam com média de idade de oito anos, sendo que 78,8% estavam na 2a série e as demais na 1a série. Na época do follow-up, 84 destas crianças participaram novamente (24 do GE1, 31 do GE2 e 27 do GC). Além disso, no primeiro ano foram participantes desta pesquisa 20 professoras (85% com 3o grau completo), nas fases do pré-teste e pós-teste e um segundo conjunto de 12 professoras (todas com 3o grau completo) no follow-up, uma vez que as crianças haviam mudado de série entre o pós-teste e o follow-up. A coleta de dados ocorreu com crianças
de três escolas públicas de ensino básico. Realizou-se a intervenção com os pais em 12 sessões, com encontros semanais de 90 a 120 minutos de duração, participando os pais do GE1 e as mães do GE2. Para responder aos objetivos: (a) os pais avaliaram suas condições de trabalho, seu bem-estar pessoal e familiar e seu repertório de habilidades sociais; (b) ambos os pais e seu filho avaliaram o grau de envolvimento paterno por parte dos pais; (c) as crianças foram avaliadas em relação ao seu desempenho acadêmico, autoconceito e repertório de habilidades sociais; (d) ambos os pais avaliaram os problemas de comportamento e o repertório de habilidades sociais de seus filhos; (e) as professoras avaliaram o desempenho acadêmico, os problemas de comportamento e o repertório de habilidades sociais das crianças e (f) os pais do GE1 e as mães do GE2 avaliaram o programa de intervenção. Para comparar os dados obtidos nos três momentos do estudo, para cada um dos três tipos de informantes (os pais, as crianças e as professoras), foram utilizados testes estatísticos (ANOVA, MANOVA); para verificar as relações bivariadas entre estas variáveis, usou-se correlações de Pearson. Em relação ao primeiro objetivo, ao comparar os resultados dos pré e pós-testes, verificou-se que os pais do GE1 tiveram uma diminuição no nível de estresse e apontaram um menor número de comportamentos do filho que os desagradavam; os pais do GE1 e do GE2 apresentaram maior satisfação quanto ao desempenho no papel familiar, maior freqüência de comunicação com o filho, maior freqüência de participação nas atividades escolares, culturais e de lazer do filho, maior participação nas reuniões escolares do filho, maior freqüência de contato com a professora do filho e listaram um maior número de comportamentos do filho que os agradavam. No que diz respeito aos ganhos obtidos pelas crianças, ao comparar os resultados entre o pré e pós-teste, verifica-se que as crianças do GE1 apresentaram: (a) melhores resultados no Teste de Desempenho Escolar (TDE) em relação ao sub-teste de leitura e à pontuação total, junto com avaliações melhores do seu desempenho acadêmico, por parte das professoras; (b) menor índice de problemas de comportamento internalizantes (segundo os pais, mas não as mães), externalizantes e total (segundo ambos os pais); (c) um repertório de habilidades sociais mais adequados em termos de Autocontrole (segundo as crianças e os pais) e Autodefesa (segundo as professoras) e (d) avaliações mais positivas por parte das professoras, em vários indicadores. De forma parecida, em
comparação com o pré-teste, no pós-teste, as crianças do GE2 apresentaram: (a) melhores resultados no Teste de Desempenho Escolar (TDE) em relação ao sub-teste de leitura e à pontuação total, junto com avaliações melhores do seu desempenho acadêmico, por parte das professoras; (b) menor índice de problemas de comportamento externalizantes e total (segundo ambos os pais); (c) um repertório de habilidades sociais mais adequados em termos de Cooperação e Autocontrole (segundo os pais), Asserção de enfrentamento (segundo as mães) e Cooperação com pares (segundo as professoras) e (d) avaliações mais positivas por parte das professoras, em vários indicadores. A maioria dos ganhos adquiridos pelos pais e pelas crianças, após o programa de intervenção, se mantiveram ou aumentaram mais ainda na fase de follow-up, com exceção da avaliação das crianças, quanto ao próprio repertório de habilidades sociais, no fator Autocontrole, em que houve uma queda significativa de repertório entre as fases de pós-teste e follow-up. Respondendo ao terceiro objetivo, o envolvimento paterno estava significativamente correlacionado com o desempenho acadêmico, o autoconceito, os problemas de comportamento externalizantes e o repertório de habilidades sociais das crianças e as medidas envolvendo as crianças estavam correlacionadas entre si. Por fim, de modo geral, o programa de intervenção ajudou os pais (GE1) e as mães (GE2) na educação dos filhos. Por exemplo, alguns (22,2%) comentaram que passaram a tratar com mais facilidade os problemas enfrentados na educação dos filhos e outros (19%) estavam lidando melhor com os problemas de comportamento dos filhos, ocorrendo em casa ou na escola. Os pais atribuíram várias contribuições importantes ao grupo de intervenção: 27% deles mudaram a maneira de educar o filho, 19% passaram a respeitar mais as opiniões do filho e 15,9% apontaram que o filho estava sendo mais obediente. Quanto ao aprendizado de novas habilidades socioeducativas, 31,7% comentaram que aprenderam a importância de respeitar a opinião do filho e 30,2% que aprenderam a impor limites aos seus filhos. Esses dados mostram a importância de realizar intervenções educativas para maximizar o envolvimento parental e, conseqüentemente, melhorar o desenvolvimento socioemocional e comportamento dos alunos em sala de aula.

Trabalho original publicado em Repositório UFSCA

Link: https://repositorio.ufscar.br/bitstream/handle/ufscar/2854/2353.pdf?sequence=1

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.