Um episódio recente após a morte de um professor universitário desencadeou uma série de questionamentos sobre o valor do sujeito nas Instituições de Ensino Superior. Para alguns colegas de trabalho a morte do professor foi tratada com frieza pela maioria, principalmente pela administração da instituição. O maior motivo de espanto e constrangimento de alguns poucos colegas mais próximos dizia respeito a falta de reconhecimento da importância dos serviços prestados pelo professor à instituição, por meio da dedicação, do compromisso e da ética que embasaram sua vida profissional.

Ao ler as manifestações dos que se indignaram, uma questão me incomodou: não percebi nenhuma indagação sobre o reconhecimento do homem, pai, companheiro, amigo, sabe o sujeito? O “João”, A “Maria”, o “José”? As expectativas frustradas sobre o reconhecimento da sua partida eram relacionadas ao seu trabalho, e ao que ele construiu enquanto profissional.

Educados  pela divisão do trabalho, inerente à sociedade capitalista, os profissionais inseridos nas instituições em geral e nas instituições de educação, não se apercebem de como elas  realizam ações que são balizadas pela necessidade de satisfazer às expectativas e cumprir imposições, garantindo a fiel execução da política educacional oficial produtivista e que nessa postura o sujeito se degrada, perde a sua identidade, realiza uma prática que nega os ideais de uma instituição educacional que existe com e para os sujeitos. Consequentemente, aliena (estranha) sua própria relação com o outro homem.

Ocorre aqui mutilação e desvalorização do ser humano, principalmente em relação ao trabalhador. Para Marx, isso é o que aniquila o homem: “…degradam-no a uma insignificante peça de máquina; aniquilam, com o tormento do seu trabalho, o conteúdo do próprio trabalho…; deformam as condições nas quais ele trabalha… transformam o período de sua vida em tempo de trabalho…sob o rolo compressor do capital.”[1]

Este paradigma, longe de causar impactos consoantes com o que seria esperado numa instituição de educação, no caso a universidade, em termos de ação e formação humana integral, preocupa-se com processos e resultados e desenvolve duas concepções contraditórias relativas ao mundo do trabalho. A primeira que é a redefinição do processo de uso da força de trabalho com a intensificação de características negativas presentes há muito tempo nas relações de produção fabris e copiadas pelo modelo universitário; a segunda que se apresenta por formas de gestão que qualificam o trabalho e as tarefas estimulando o individualismo, a competitividade e responsabilizando os docentes pela qualidade institucional e pelos resultados esperados nos índices das agências governamentais. Importa quantos artigos foram publicados, o número de Teses e Dissertações defendidas, a nota recebida nas avaliações e assim sucessivamente. As questões sobre para que? Para quem? Como e porque? Não importam.

Existe uma lacuna quando se discute o sentido da universidade e da educação. Qual é a concepção do trabalho do educador que se dá num espaço que não é o fabril, o que é o ensinar e aprender? As bases do ensino superior: ensino, pesquisa e extensão são feitas por sujeitos e para sujeitos na e em relação com. Como essas relações estão acontecendo?

Devemos considerar que a educação tem um papel ativo e estimulador a desempenhar e deve cumprir um importante objetivo, a saber, a promoção da inovação do progresso técnico e científico, da ética e da estética sem perder de vista  o sujeito como centro do processo. Para isto, é necessário estabelecer práticas que considerem novas formas sociais para romper com o processo de desumanização cada vez mais crescente em nossa sociedade.

O mundo moderno é o mundo da destruição da própria subjetividade. A crise do trabalho, portanto, é a explosão da própria base da sociabilidade. “O papel do trabalho na transformação do macaco em homem”[2] como parte de um processo de humanização) se inverte agora e o papel do trabalho na transformação do homem em macaco é a história a ser contada doravante. Os sujeitos que precisam lutar pela sobrevivência e se adaptar ao curso do mundo, sofre um processo de esgotamento do que um dia se insinuou como subjetividade e experiência da individualidade. As necessidades materiais fabricadas exteriormente aumentadas pelas tecnologias em curso tornam-se absurdas e insensíveis e reconfiguram as relações humanas e o ver, sentir e agir.

Ampliar o entendimento do fazer educativo para além do campo cognitivo é tarefa imperativa. Entender a universidade como espaço laboral é pressupor essa como espaço em que a subjetividade do professor sujeito trabalhador está sendo forjada a partir dos interesses da produção e do produto que gera, isso produz competitividade, gera desconfortos, adoece as relações. Uma natureza humana forjada a partir dos interesses do modo produtivo transforma os sujeitos em resultados. “Não sois máquina! Homens é que sois!”[3]. Assim, entender o homem que sente e se emociona é tarefa imediata.

A educação emocional, emerge, como caminho para o reconhecimento do homem em seu universo integral e como centro do reconhecimento do processo de conhecer a si para conhecer ao outro   e  possibilita a reorganização das relações interpessoais.

Ampliar a discussão sobre as emoções e conceber a prática profissional cotidiana na e em relação entre conhecimento e emoção, cognitivo e emocional é o impacto da Educação Emocional. Somos seres que vivemos na relação com e neste relação precisamos estar regulados para desenvolver todas as áreas da vida.

A educação emocional propõe o caminho da autonomia do indivíduo e a busca do bem-estar. Isto nos coloca no lugar de vivenciar nossas emoções para além de nossas ações e de pensar nossas práticas para além do fazer reativo às demandas técnicas da sociedade e da ciência e nossas relações para além dos resultados obtidos. O trabalho coletivo pressupõe interações que reverberam e fazem ecos em nossas vivências emocionais. Os aspectos ai impregnados superam o conhecer cognitivo ou o saber fazer. Importa saber ser e saber conviver.

Neste sentido, e, considerando que nenhuma atividade humana é apenas o resultado de experiências individuais, mas resultam de suas experiências sociais, coletivas, principalmente interativas, pode-se afirmar ou reafirmar que neste aspecto, objetividade/subjetividade; indivíduo/sociedade vivenciam a construção de saberes e, assim, o espaço do aprender é privilegiado para a expressão do homem sujeito emocional.

É necessário e urgente que a educação emocional seja propiciada como espaço de construção de competências socioemocionais. Como um espaço para resgatar os sujeitos e sua importância. Não podemos perder de vista o significado do que somos:  somos sujeitos do e no processo, agentes históricos que podemos transformar ou nos adaptarmos à realidade.

Somos analfabetos emocionais inseridos numa realidade sócio-laboral-cotidiana que nos aprisiona e sequestra nossas emoções. Isso deixa claro que, no trabalho, o homem não vivencia o que primeiro caracteriza este ato de trabalhar – sua própria constituição como ser.

Se vencermos as barreiras e alcançarmos a educação emocional, quando nos depararmos com a partida de alguém querido a questão será: era um amigo feliz, um pai amoroso, um filho amado, um professor atencioso? um companheiro dedicado? As teses, artigos, laboratórios? Isso será secundário.

[1] MARX, Karl. O Capital – crítica da economia política. 10ª ed. Trad. Reginaldo Sant‘Anna. São Paulo: Abril Cultural, Col. Os Pensadores, vol.1, Tomo I, 1983.

[2] ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. A ideologia alemã: (I-Feuerbach). 10ª ed. São Paulo: Hucitec, 1996.

[3] Charles Chaplin, no filme The Great Dictator – O Grande Ditador. 1940.