Aconteceu em Curitiba, Paraná, em fevereiro de 2018. Um jovem de 17 anos se jogou de uma passarela da BR-116. Ele permaneceu na passarela por quase 1 hora, e nesse tempo esteve em diálogo com os bombeiros. Expressou uma vontade de desistir do suicídio quando ouviu um grupo de pessoas, que estava assistindo tudo, gritar: “Pula, pula!”. O jovem abriu os braços e se jogou. Com ferimentos graves, morreu horas depois.

Este retrato da barbárie me faz lembrar um pensamento de Marx sobre a sociedade capitalista: “Que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões; em que se pode ser tomado por um desejo implacável de matar a si mesmo, sem que ninguém possa prevê-lo? Tal sociedade não é uma sociedade; ela é, como diz Rousseau, uma selva, habitada por feras selvagens”[1].

Lamentavelmente, assim é. O processo civilizador da sociedade caminha de forma anacrônica, suportando – e muitas vezes alimentando – atitudes estranhas à humanização. Desrespeitando o princípio da vida e destruindo os últimos vestígios do sentimento gregário, assistimos incrédulos ao espetáculo da morte criado por alguns de nós. Sim, alguns de nós. Há de se falar em co-responsabilidade afinal, a sociedade não é um dado estático, ela é uma construção feita historicamente e por cada um de nós no tempo presente.

Toda ação humana é envolvida por uma emoção, como sustenta António Damásio. Se por fora podemos observar gritos de “Pula, pula!”, por dentro somos reféns de motivos e emoções obscuras que nos cegam.

Sem dúvida que muitas emoções podem estar presentes naquele grupo de pessoas que só queriam assistir a um espetáculo da morte ao vivo. Mas neste momento quero destacar a hostilidade.

A hostilidade está relacionada com a forma de compreender as situações, as pessoas. A atitude hostil está associada àquela que trata o outro como adversário, contrário ou inimigo. A hostilidade é nutrida pelo ressentimento, pelo desprezo, pela aversão. A hostilidade está na base de toda atitude agressiva e também preconceituosa. A hostilidade, que pertence ao rol das emoções, é um componente determinante na geração da violência. “Pula, pula!”. Porque há desprezo. “Pula, pula!”. Porque a vida do outro não tem valor.

E a dor daquele menino, que interrompeu sua vida aos 17 anos, permanece emudecida. Até o momento, escutamos apenas os gritos do desprezo. Uma dor social que revela o poder de uma emoção que, quando compartilhada, transforma um vento em um furacão. E a dor daquele menino permanece no silêncio de uma população ignorante da sua própria falência enquanto Ser. O suicídio, a quarta maior causa de mortes entre jovens de 15 e 29 anos, de acordo com os dados de 2015 no Brasil, talvez seja a face mais cruel da dor que implora uma ajuda.

O menino gritou: “Socorro! Preciso de ajuda!”. E a sociedade só escutou: “Pula, pula!”.

Educação Emocional para quê? Pela urgência da questão eu respondo rapidamente: troque a pergunta para “Educação Emocional para quem?”. Enquanto ainda há tempo. Enquanto ainda existir vestígios de humanidade.

[1] Marx, Karl. Sobre o Suicídio.São Paulo: Boitempo, 2006, p. 28.