Terminei estes dias um curso de Educação Emocional. Minha participação partiu de duas necessidades: aprender o conteúdo para desenvolver projetos profissionais  e enfrentar novos desafios.Tudo certo, tudo tranquilo. O “aprender” cognitivo requer esforços mas é algo que me fascina pela vida afora. Obviamente a Educação Emocional é uma novidade para mim. Como leiga mas não 100% desinformada aceitei o convite para fazer o curso. Eu racional, pragmática, linear e outras coisinhas mais, sabia que ao chegar lá não ia apenas  escutar exposições, escrever textos, fazer leituras em grupo ou fazer prova. Enfim não era a educação ou os cursos com os quais estava acostumada. Tive que me convencer, me esforçar a ir. Estava empolgada, motivada e curiosa, mas estava meio difícil, na verdade, muito difícil. Estava apreensiva.

Aqui começa o movimento da busca: superei o medo do que podia acontecer porque racionalizei tudinho mesmo: se algo me incomodar sei como agir, se não me interessar por alguma coisa não faço , se, se, se…assim com tudo resolvido na minha cabeça encarei minha dificuldade e fui.  A grande dificuldade foi uma: o ato de ir no sentido literal: dar os passos até o local do curso. E ai me lembrei de uma música que diz assim: “toda caminhada começa no primeiro passo…” Este foi com certeza um dos primeiros passos mais difíceis da minha vida.

Acho que seria normal todos pensarem que sou,  estou ou fiquei maluca. Como assim, porque um curso, um simples curso pode ser tão difícil ? No meu caso naquele momento as dificuldades eram pontuadas: primeiro o querer ampliar minhas práticas na educação no sentido da EE. Segundo, entender os limites tênues entre me abrir profissionalmente para um novo paradigma e ou lidar com meu próprio eu. Na vida permitir-se o contato com as emoções não é exercitado ou valorizado pela sociedade. Olhar para si e perceber-se pode ser muito difícil e desafiador. Prefiro olhar para os outros, prefiro cuidar de coisas, enfim o racional é mais fácil do que o emocional. E eu particularmente, no fundo sabia que  estava num momento de enfrentar alguns fantasmas para  desenvolver novos projetos. E estes fantasmas certamente não seriam a dificuldade de interpretar textos ou fazer uma operação matemática. Os fantasmas eram outros.Pronto: aqui o bicho pega, o monstro aparece.

A QUASE FUGA:

A DESREGULAÇÃO DAS MINHAS EMOÇÕES

Enfrentando o primeiro passo, precisava continuar caminhando, ou poderia simplesmente fugir. Quase como uma criança que aprende a caminhar fui me desafiando e travei uma  luta entre o meu lado direito e esquerdo. Meus tico e teco quase deram nó. Começar a aprender sobre a constituição do ser, todos os seus envoltórios. Entender como um aspecto da nossa existência reverbera sobre todos os outros, começar a saber sobre as emoções de forma conceitual: o que, quais ;  emoções primárias, emoções sociais, etc… Estava eu lá atenta e concentrada. Eu estava mesmo era com medo. Eu sabia de algumas coisas que não conseguiria fazer. Eu tracei um plano de fuga. Já pensou  ?  não estou falando no sentido figurado não. O plano era concreto: fico perto da porta, deixo tudo organizado e fujo. Olha, comecei a racionalizar novamente: e ai, empoderada das coisas que estava aprendendo e entendendo fiz uma descoberta: sou um ser ambulante, desregulada e pior: mal consigo identificar as próprias emoções: o que eu acho que é vergonha provavelmente é medo ou vice-versa, o que penso que é medo é na verdade raiva. Quando estou, na linguagem popular “me achando” ou “podendo” estou na verdade me protegendo ou manipulando a situação. Ora bolas fiquei pensando comigo mesma: será você um caso perdido, um caso a ser estudado isso é bom ou ruim  ? Não se trata disso. É assim porque é mais profundo vivenciei muitas descobertas.

O GRUPO: interações

O estar com, o outro , o eu ou quando estou com.

A interação que ocorre em qualquer trabalho coletivo, ou curso, ou festa, ou outros espaços nunca foi naturalmente fácil para mim. Nunca fui um ser “coletivo”. Na verdade  nunca me senti bem em grandes aglomerações ou estando com muitos. E nestes quatro dias, percebi que o estar com, independe de relações estabelecidas. Simplesmente porque  vivemos em sociedade e as energias nos conectam ou distanciam. Estava tudo resolvido na minha cabeça: feito o reconhecimento do campo depois de meia hora de curso já tinha decidido quem era quem e de quem ou com quem iria interagir. Descobri muito rapidamente o que moveu cada um até ali e passei a observar as reações e decidir quais seriam as minhas. Na primeira vivencia me dei mal. Sabe aquela rasteira? reagi: esta pessoa é invasiva, aquela é agressiva, outra é incomoda, dessa não me aproximo, com esta não trabalho e por ai fui classificando. A única que passou em branco fui eu mesma. E porque não reajo bem a esta ou aquela ou aquela outra situação ou pessoa não me ocorreu. Como uma criança birrenta fui me irritando e fazendo firmeza na minha postura. Na verdade não queria me abrir para o outro, principalmente se este outro não é próximo, com quem já estabeleci vínculos. Mais uma vez percebi que o meu movimento era impulsionado pela vergonha e pelo medo e desencadeou a raiva. Porque alguém está me olhando, outro me desafiando, outro disse que preciso dançar ;  porque alguém se aproximou tanto? Na verdade era tudo medo, medo das minhas fragilidades. A vergonha é desencadeada em mim pelo medo da exposição e se torna paralisante. Gera um desconforto e fui descobrindo aos poucos, lentamente que  não consigo lidar com a avaliação, ou críticas ou elogios ou reconhecimento. Vai saber… Eu que sempre afirmei que tô pouco me importando com o que dizem ou pensam de mim. Tipo: falem mal mas falem de mim. Será mesmo  ?

E no decorrer do processo foi bem assim: porque vou me expor na frente na frente destas pessoas, porque vou dançar, tocar ou ser tocada ? Eu hein, tô fora. Depois, fui tocada profundamente ao perceber o que fazemos em nossas práticas cotidianas com os alunos. Na escola e como professores desconsideramos o individuo e ele em relação e na relação consigo e com os outros e os impedimentos que isso pode desencadear no aprender.

DOS PRIMEIROS PASSOS AO VOO

Mesmo racionalizando também estava movida por um sentimento de me desafiar. Ora, quem quer sofrer? eu sabia que seria sofrido mas também sabia que queria ver no que ia dar , dentro dos meu limites. Assim, fui tocada profundamente pela vivencia com as cores e com os aromas e por outro lado percebi que o meu nó era a exposição corporal ou a expressão do corpo. Bom, o problema aqui é que sempre fui livre em relação ao meu corpo. Ou pensava que era. Sempre gostei dele com seus defeitos, nunca tive problemas em relação à sexualidade, ou em mostrar meu corpo. Gosto da minha nudez. Então, como assim: Dançar? não mesmo. Ser tocada também não. Eu sabia que era mais profundo, que passei a vida obrigada a ser forte e a ter forças e que o entregar-se  significa para mim fragilizar-se.

Ocorre, que eu  ia querendo ganhar uns pontinhos. Me testando. E pra não dizer que não falei de flores, vi sutilezas e nuances quando os passos trôpegos do caminhar (aquele em direção a curso)se alargaram em direção ao voo. Em alguns momentos pelo simples ato de tentar: uma vivencia aqui, outra ali e assim fui. Mas, Minha gente , acontece que nem tudo são flores. Fui altaneira e orgulhosa fazer a posição da montanha….essa eu consigo, por ai eu vou. REPROVEI. Estava eu lá, límpida e faceira e escutei que não tinha feito o que era para fazer. Fui para a recuperação….

A GRATIDÃO

O encontro comigo, minhas emoções e desregulações era realidade e eu seguia querendo racionalizar. Isto é por causa disso, não faço a gongoterapia porque já passei da idade (agora, imaginem vocês que até esta desculpa esfarrapada eu dei: já estou velha demais) entre outras: o chão é duro, a posição desconfortável. Sou assim mesmo e está tudo certo, já passei da idade de mudar. Mas o voo que sentia que estava começando a alçar era de verdade. Sabe aquele eu do início que se recusava à partilha, ao contato, a entrega? BUM!!!! No único momento em que podia dominar e arrasar me dei mal: literalmente chorei, profunda e abundantemente chorei. Para piorar eu fui a única a chorar e era sem controle (tentava, tentava mas não conseguia). Neste momento voei alto, porque não racionalizei, não tentei entender, apenas senti e chorei. Obviamente senti vergonha e raiva mas elas não me incomodaram ou paralisaram. Apenas senti e me desnudei. E o voo significou outro primeiro passo: o da minha alfabetização emocional.