Tratamento inicial da questão: a formação humana não é um truísmo.

Tal como afirmado em texto anterior, pretendemos, ao longo da publicação periódica desta coluna, tratar de temática ainda pouco compreendida na cultura brasileira e, em especial, no próprio campo acadêmico, a despeito do termo formação humana ser de uso comum em quase todas as áreas e mesmo na vida cotidiana.

Entre algumas das razões que nos moveram a escrever sobre esse tema, encontra-se precisamente o reconhecimento de que essa ideia está longe de ser facilmente admitida como tal, por razão de incompreensão geral ou simples oposição à mesma, ou ambos os motivos.

Por outro lado, ao longo dos anos de estudos que desenvolvemos em torno dessa ideia, nos foi possível perceber que o desconhecimento geral da mesma não decorre da ausência de estudos, práticas e reflexões diversas realizadas durante vários séculos em diferentes culturas e disponibilizadas em obras que alcançaram nossa época sob a condição de serem consideradas clássicas. Não pretendemos, portanto, reivindicar qualquer autoria ou originalidade quanto à criação dessa ideia que remonta, com registros seguros e legitimados, há mais de dois milênios. Nosso trabalho é de outra natureza. Pretendemos aqui apresentar uma síntese da referida ideia, com base em distintas contribuições de autores e tradições clássicos, e demonstrar, em seguida, a importância da mesma para todo empreendimento humano, mas com foco especial na educação.

Pretendemos esclarecer ao longo de nosso trabalho que, longe de ser um truísmo, a expressão formação humana encerra uma noção precisa e exigente que não se encontra disponível como algo dado ou imediatamente realizável em sua pertinência ao fenômeno humano. Por tal razão, pensamos que ficará patente, ao longo destas páginas, que o conceito de formação humana não é um truísmo cuja apreensão esteja diretamente acessível ao senso comum da vida social e cultural em que nos movemos. No entanto, por se tratar, como reconhecemos, de ideia muito antiga e clássica, o fato de a mesma não se fazer disponível ao senso comum faz emergir a questão de por que tal ideia ainda não se encontra disseminada e facilmente acessível. Há, portanto, obstáculos de diferentes naturezas – desde aspectos culturais e sociais até os de natureza psíquica e pessoal – à simples apreensão do sentido de formação humana, a despeito de quão antigas sejam a sua formulação e expressão em obras clássicas.

É nosso projeto, ao longo dos textos desta coluna, contribuir para a resposta àquele questionamento. Preliminarmente, entretanto, e para que o leitor tenha em mente algumas das razões pelas quais tal conhecimento clássico ainda não se pôs na condição de saber comum da humanidade, podemos afirmar que uma dessas razões consiste precisamente em que a apreensão de tal ideia, na maioria dos casos, exige simultaneamente um tipo de automodificação ou autoestruturação de si próprio de uma forma específica e compatível com aquela e com o que cada um é em si mesmo. A explicação desse entendimento virá ao longo de todo este trabalho, como esperamos.

A expressão “formação humana” só é admissível quando há entendimento comum sobre o que é o humano

Reconhecemos, como um dos obstáculos fundamentais à compreensão e, mais ainda, à aceitação da ideia de formação humana em sua plena legitimidade, a ausência de consenso fundamentado e comum sobre o que seria próprio do humano e derivasse do seu modo de ser. Tal ausência de consenso ocorre a despeito de a todos ser acessível a apreensão empírica dos seres humanos concretos e particulares e das realizações especificamente humanas em um mundo que foi constituído especificamente por tal ser e não herdado simplesmente da natureza.

Apesar de admitirmos a ausência do referido consenso sobre o que seja o humano, é imperioso reconhecer desde o início deste trabalho – e tal reconhecimento será devidamente considerado ao longo da exposição do nosso argumento por vir – a existência de diversos momentos históricos fundamentais à nossa própria herança cultural em que se afirmou explícita e resolutamente a existência de um fundamento comum à humanidade e, portanto, à ideia do humano como seu fenômeno próprio e constituinte. A título de exemplo, podemos pensar em momentos como o da Revolução Francesa ou por ocasião da constituição da Organização das Nações Unidas, quando o ser humano, em todos os lugares e culturas, foi declarado como sujeito de direitos e constituído de dignidade intrínseca não passível de ser destituída por governo ou estado algum. Nesses momentos, portanto, os seres humanos presentes apontaram, ainda que sem considerações maiores quanto à fundamentação de suas asserções, para uma acepção do humano diretamente disponível ao entendimento de todos, o que só poderia ter assim acontecido por tomar por assentada, ainda que sem reconhecimento explícito, a existência de um fundamento comum a todo ser humano. Certamente não olvidamos o fato de que tal entendimento do humano nunca foi total e pacificamente aceito por todos os povos e governos; antes, a história registra até aos dias atuais a luta incessante de várias pessoas e movimentos, em diversos países, para fazerem valer praticamente a cobertura dos direitos que foram declarados universalmente dignos e inalienáveis a todos os seres humanos na ocasião de sua enunciação solene. Por outro lado, o próprio fato de que haja uma luta perene para fazer valer os direitos humanos em todas as partes do globo terrestre, independentemente das culturas e sociedades, indica a existência de características próprias e intrínsecas ao ser humano capazes de declarar, em relação a este ser, não apenas aquilo que ele é tal como empiricamente encontrado, mas igualmente aspectos daquilo que ele deve vir a ser como decorrente de simplesmente ser o que é.

A despeito da existência de tais momentos em que o humano foi reconhecido como dotado de atributos universais, temos clareza de que tal consenso (estamos cientes de que este, mesmo no âmbito dos direitos humanos, se expressa muito mais em sua enunciação do que em seu reconhecimento prático e empírico) tende a se dissolver quando investigamos mais profundamente as possíveis razões pelas quais se possa caracterizar, além de qualquer dúvida razoável, aquilo que é próprio e constituinte desse fenômeno humano.

Há, portanto, necessidade de que haja entendimento minimamente aceitável sobre a natureza do que venha a ser considerado como humano, sob pena de não se poder progredir na compreensão da formação humana. Tal entendimento, entretanto, só é passível de realização à medida que se superem os possíveis impedimentos iniciais à admissibilidade da ideia que se refere àquilo que é próprio do humano ou da humanidade, e tal empreitada se torna mais difícil quando se têm em mente a tendência dominante a se considerar tal discussão como de natureza metafísica e, por conseguinte, inapropriada à consideração racional. Necessário se faz, portanto, enfrentar desde o início tal objeção.